quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os "bodes expiatórios" (II)



A mudança

Ao chegar de uma missão no dia 6 de Junho de 2011, a DG é chamada ao gabinete do MECF, em presença do Senhor Director de Gabinete do MECF. O MECF pergunta à DG como correu a missão. Esta responde-lhe que tinha corrido muito bem. Tendo sido portadora de uma missiva dirigida ao MECF, entrega-a. O MECF lê-a. De seguida o MECF entrega à DG  um despacho conjunto assinado pelo Senhor Primeiro Ministro (PM) e pelo próprio MECF, dando por finda a sua Comissão de Serviço.
A DG, não foi ouvida por alguém, nem sequer foi-lhe concedido um único dia para poder fazer a passagem  dos dossiers.
O MECF disse-lhe, em termos gerais que era uma excelente funcionária, que no plano profissional não tinha razões de queixa mas não podiam ocupar o mesmo espaço porque a DG era incapaz de se relacionar com quem quer que fosse. Noutros termos o MECF disse que a DG cumprira todas as metas para as quais fora indigitada, mas que “não se relacionava com as pessoas”, era um “fator de desunião”. Para sustentar essa afirmação disse que a DG era a “causa do despedimento do Senhor Director da Casa da Cultura”; acrescentou que “apenas trabalhava e não falava com os outros”e que “não se dava bem com funcionário algum”.
Continuando o rol das “incriminações” o MECF fez referência à mensagem que lhe fora enviada pela DG  na terça-feira, 31 de Maio de 2011. O Senhor Ministro não parecia incomodado com o conteúdo da dita, mas sim com o fato de esta ter sido enviada em cópia para a Senhora Secretária Geral do Ministério da Educação Cultura e Formação e para o Senhor Director de Gabinete, do MECF.
Ora, a partir de 23 de Fevereiro do ano em curso, uma das supracitadas entidades estava invariavelmente presente a cada vez que a DG tivesse que se reunir com o Senhor MECF. A leitura dessa atitude recorrente faz pensar que existe confiança. Em sociologia a confiança não é somente um elemento psicológico dos agentes é um processo inerente à reprodução e à constituição das sociedades, jogando um papel importante na sedimentação da ação coletiva. Assim sendo, o fato da Secretária Geral e do Diretor de Gabinete, estarem invariávelmente presentes nas reuniões de trabalho da DG com o MECF, significa que  estes quatro indíviduos estavam engajados num mesmo processo consolidado pelos laços de interacção criados. Nesta ordem de ideias,  todos faziam parte do mesmo grupo social e por isto, partilhavam os mesmos valores. Acresce ao fato que as mensagens de trabalho com cópia para a Secretária Geral terem passado  a ser rotineiras desde  finais de Fevereiro.
De fato no dia 27 de Maio de 2011, em presença do Director de Gabinete, o Sr. Ministro da Educação e Cultura fez referência a um e-mail que esta havia enviado no principio do mesmo mês de Maio a propósito do festival Gravana, com cópia para a Secretária Geral e para a Senhora Directora do Turismo e esposa do Senhor Ministro MECF. O Senhor Ministro disse na altura que assuntos de Estado não deveriam ser enviados a pessoas estranhas aos serviços. Pelo que depreendi que a única pessoa estranha ao Ministério da Educação Cultura e Formação  seria a Senhora Directora Geral do Turismo que curiosamente fazia parte da comissão organizadora, bem como o filho do  o actual Secretário Geral da Comissão Nacional para a UNESCO, (COMNAT)
O MECF mostrou-se indignado pelo fato de a DG ter divulgado o conteúdo da mensagem, para o exterior, coisa que a DG não fez. Apenas as duas personalidades do Ministério supracitadas receberam a cópia da mensagem. Como é que essa cópia foi parar aos media?
Referindo-me ao contéudo da dita mensagem que continha 16 pontos, conforme cita o jornalista do Téla-Non, justificando as razões da tomada de posição da ex-DG, o Senhor Ministro apenas se interessou pelos pontos em que se lia “estarei aí na sexta-feira para resolver a questão” e mais adiante “informarei ao Senhor Reginaldo D’Alva –  então técnico da Direção Geral da Cultura (DGC) -para que suspenda todas actividades a realizar com o Sr. Major”.  Ao que o Sr Ministro, visivelmente perturbado e num tom irreconhecivel, perguntou:  “afinal quem manda aqui eu ou você, quem é o Ministro?” A fazer juz a essa reação do Senhor Ministro regista-se um problema de autoridade.

Ora, é évidente que a divisão social do trabalho é fundamental, para o bom termo das tarefas em qualquer organização. Ela permite a regulamentação do trabalho,  facilitando os intercâmbios com os outros  e agilizando a resolução dos problemas  dentro e fora da organização.

No Téla-Non lê-se  “a polémica segundo fonte governamental arrebentou quando a DG pediu explicações ao ministro atravès de uma carta, sobre a decisão de Olinto Daio em indigitar o cidadão Ayres Major, para organizar os festejos da independencia nacional

Pelo contrário, na mensagem dita polémica, a DG justifica o fato de não achar benéfico que pessoas alheias à DGC, estejam a imiscuir-se no trabalho dessa Direção. Com efeito, a DG pedia um voto de confiança para a DGC e a sua jovem equipa, que vinham fazendo um trabalho de terreno, destinado a compreender a importância de cada  grupo cultural nas suas respectivas comunidades. Considerava este ser igualmente um fator influente na escolha dos grupos para o desfile na Praça da Independência. A DG pretendia igualmente alertar para o fato de que não basta mudar as chefias para que haja mudanças. Noutros termos não basta mudar  de Director Geral da Cultura para que se verifiquem mudanças na Direção Geral da Cultura.

Note-se que o Senhor Major, referenciado no supracitado artigo, funcionário reformado da DGC foi durante cerca de 18 anos Assessor da Diretora Geral da Cultura que precedeu Iolanda Aguiar e é o actual Secretário Geral da Comissão Nacional para a UNESCO, (COMNAT). No dia 31 de Dezembro de 2011, este, havia informado à então DG que pretendia demitir-se. Arguiu que precisava de deslocar-se a Portugal por motivos de saúde.  Por isso, afastou-se de livre e espontânea vontade da DGC, na altura da preparação das festividades do 3 de Fevereiro que, curiosamente, coincidiu com a doença de vários funcionários,... quiçá uma epidemia coletiva de mau presságio na DGC que, felizmente, serviu para confirmar a competência da DG e da sua equipa.

continua...


A Caça às Bruxas: como os rumores fabricam bodes expiatorios (I)

Niveis de plausibilidade
O primeiro nível tem a ver com o problema da generalização grosseira, “O Téla-Non sabe que a Direcção de Iolanda Aguiar já vinha sendo contestada pelos músicos, compositores, actores interpretes e também pelos funcionários da Direcção Geral da Cultura”. O artigo em causa peca pela generalização. Sabe-se que a Direcção vinha sendo contestada pelos Funcionários da DGC, quais, quantos, todos? A titulo de exemplo, não se pretende dizer aqui que não tenha havido contestação por parte dos funcionários, mas que o Téla-Non generalizou o problema. Não se pretende, igualmente, dizer que não houve contestação dos músicos. Mas, interessa saber no universo dos músicos, quantos teriam contestado, foram todos os músicos? Estas perguntas teriam sido úteis e teriam obrigado o jornalista e suas fontes a veicularem informações fundamentadas.
Num segundo nível a informação para além de não fundamentada é extremamente insidosa. Envolve o problema da plausibilidade. Basta que todo o mundo creia ... para que ganhe o estatuto de verdade. Mas o que é plausível, não é necessáriamente correto. O argumento que o jornalista do Téla-Non apresentou, apoiando-se em fonte do governo, é na verdade extremamente falacioso, faz um apelo a uma circunstância piedosa para reclamar razão... “O Ministro da Cultura decidiu apostar no cidadão Ayres Major, para organizar os festejos da Indepêndencia Nacional, alegando inexperiência dos novos quadros na Direcção Geral da Cultura”. Neste caso específico trata-se da ideia que o cidadão em questão veio salvar a estrutura defeciente posta em prática pela então DG sob autoridade do próprio MECF. A mesma DG e a sua jovem equipa com créditos confirmados em diversas áreas, destacando-se a organização de eventos como o 26 de Novembro, (aniversário da assinatura do Acordo de Argel), o 3 de Fevereiro, (efeméride alusiva ao Massacre de Batepá) e o 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus, demosntrando assim serem sujeitos capazes!!!
O jornalista prossegue: “A engenheira agronoma... travou nos últimos meses intenso conflito com MECF (...) O Ministro decidiu pôr fim ao reinado breve e conflituoso (...)” Esta afirmação ganha a sua plausibilidade na base de dois truques de argumentação. O primeiro, a arte de atacar pessoalmente uma putativa autoridade e não suas qualidades. Isto é encetar ataques pessoais e não atacar o argumento. Se bem que os ataques pessoais não retirem o mérito do argumento quando muito revelam o caráter dos arguentes. O segundo, trata-se de veicular a ideia de que a DGC tem um carácter conflituoso, noutros termos a “DG é conflituosa e foi por isto que esteve apenas cerca de 7 meses à frente da DGC, o seu caracter impedi-a de interagir com os outros - insociável. O jornalista, com base nessa falsa premissa, insinua-se ao leitor, veiculando a ideia de que a DG é intratàvel.
Uma outra manifestação de plausibilidade tem a ver também com uma falácia, o argumento “ad populum”. Este consiste no apelo à opinião geral: todo o mundo sabe que... Pois todo o mundo (o Téla – Non, todos os músicos, os compositores, os actores, os interpretes e os funcionarios da DGC) sabia/sabe que a “DG é conflituosa”, por isto... a polémica rebentou” porque “conflituosa” que é, “pediu explicações ao Ministro...” só poderia estar mais uma vez, como era hábito, a faltar o respeito às autoridades, subentenda-se. Logo os relatos de que a DG contestada é conflituosa e desrespeitou mais uma vez o MECF, ... só podem ser verdade. No entanto, importa salientar que há diferença entre supôr que um depoimento seja verdade e verificar se ele corresponde à realidade.

continua ...

justificação

Tentei publicar em alguns jornais nacionais o artigo “A caça às Bruxas: como os rumores fabricam os bodes expiatorios” em resposta ao artigo que acabram de ler , mas foi completamente impossivel. Razão pela qual publica-lo-ei, aqui, neste blog, em seis partes:
1. Niveis de plausibilidade
2. A mudança
3. O mito da “família”
4. A palavra
5. Actividades realizadas pela DGC
6. Breves considerações sobre a Cultura

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»


No dia 10 de Junho de 2011, o jornalista Abel Veiga , publicou um artigo no jornal digital Téla Non, intitulado “Crise no Ministério da Educação Cultura e Formação”. O artigo em questão refere-se à demissão da Directora Geral da Cultura, (adiante designada DG), das suas funções em carta assinada pelo Primeiro Ministro, (adiante designado PM) e pelo Ministro da Educação Cultura e Formação, (adiante designado MECF). Afirma ter sido o primeiro elemento da familia da mudança a cair do poder. Descreve a ex-DG como “personagem conflituosa e desrespeitadora”. Acusa-a de, através de uma carta, ter pedido explicações ao MECF pela sua tomada de decisão em relação às festividades alusivas à celebração da independência nacional. Tudo isto fazendo ressaltar no plano simbólico os laços de parentesco entre o PM e a DG. O objectivo foi designar um culpado a uma massa mediática, para um fenómeno que desconhecia... Entretanto torna-se difícil apreciar a plausibilidade dos argumentos apresentados, pois estes parecem ser motivados por juizos de valor e digamos, falta de informação para avalia-los.

A questão que aqui se coloca, é de saber se os fatos, utilizados pelas fontes de informação do Téla- Non são sólidos: como se justifica o juízo de valor sobre o despedimento precipitado da DG e porque se deve fazer o que deve ser feito. O que se pretende dizer aqui não é, por exemplo, que a DG não seja família do PM, mas que as fontes que informaram o Téla-Non e o próprio jornalista tiraram conclusões precipitadas. Prestam, consequentemente, um mau serviço à esfera pública.

Nestes termos, utilizando, de uma prerrogativa que me é acordada, enquanto cidadã deste país, permito-me utlizar o “direito de resposta”. Procurarei, pois, na medida do possível, pautar por uma atitude elegante, de elevada cultura de debate público, tentando policiar o meu instinto acusatório – “tipo só pode ser”...

Tentarei, por conseguinte, exercitar o meu espírito crítico interpelando o jornalista do Téla – Non a dois níveis principais que passo a apresentar, para depois tecer algumas considerações, sobre a minha visão da cultura, aquilo que gostaria de ter feito, aquilo que uma imprensa mais responsável pode contribuir para a cultura em STP e, mais especificamente, para a cultura politica..

Antes porém , leiam o “artigo” primeiro e vemo-nos mais abaixo:

A Directora Geral da Cultura Yolanda Aguiar foi demitida das funções através de um despacho conjunto assinado pelo primeiro-ministro Patrice Trovoada e o ministro da Educação Cultura e Formação. Yolanda Aguiar é o primeiro elemento da família da mudança a cair do poder.

O caldo entornou-se no Ministério da Educação Cultura e Formação, Yolanda Aguiar, prima do primeiro-ministro Patrice Trovoada nomeada Directora Geral da Cultura, em Outubro do ano passado escorregou no tapete da MUDANÇA e caiu.

A engenheira agrónoma que o Governo da Mudança nomeou como Directora da Cultura, travou nos últimos meses intenso conflito com o Ministro da Educação Cultura e Formação Olinto Daio. A polémica segundo fonte governamental, arrebentou quando a directora da cultura pediu explicações ao ministro através de uma carta, sobre a decisão de Olinto Daio em indigitar o cidadão Ayres Major, para organizar os festejos do dia da independência nacional, 12 Julho, no que concerne a participação dos grupos culturais no evento.

Olinto Daio não gostou, da missiva de 16 pontos, da Directora da Cultura Yolanda Aguiar, sobretudo numa das passagens em que a directora da cultura, faz referência ao slogan do Governo da Mudança. “Deixam-nos Trabalhar”. Yolanda Aguiar inspirada no Slogan pediu ao ministro que a “deixasse trabalhar “, sem sua superior interferência.

O Ministro Daio, não conseguiu digerir a situação, e decidiu pôr fim ao reinado breve e conflituoso da prima de Patrice Trovoada, na direcção da Cultura. O Téla Nón sabe que a direcção de Yolanda Aguiar já vinha sendo contestada pelos músicos, compositores, actores, interpretes e também pelos funcionários da direcção da cultura.

A fonte do Téla Nón explicou ainda que o Ministro da Cultura decidiu apostar no cidadão Ayres Major, para organizar os festejos da independência nacional, alegando inexperiência dos novos quadros da Direcção Geral da Cultura.

Por esta e outras razões, Patrice Trovoada primeiro-ministro e chefe do governo, decidiu aceitar a demissão proposta pelo ministro da Educação Cultura e Formação. O decreto governamental que demite a directora da cultura e que o Téla Nón teve acesso, é assinado pelo ministro Olinto Daio e pelo primo da Directora, o Primeiro-ministro Patrice Trovoada.

Sinal claro de que o Slogan do Governo, “deixam-nos trabalhar”, não deve ser motivo de chacota. Seja em caso de laços de sanguinidade, ou comungando a mesma coloração política, a regra é “falhou comeu”.



o som do silêncio