sábado, 3 de setembro de 2011

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»(VI)


Breves considerações sobre a  Cultura


A visão da cultura, da DG, ia forçosamente,  ao encontro da estratégia defenida pelo MECF, cujo objectivo é reforçar a identidade de STP.  Basicamente é necessário que se compreenda que “a crise na cultura” não está na manifestação dos músicos, nem no despedimento de A ou B. 

Para se encontrar soluções para a crise da cultura é  necessario primeiro comprender-se dois pontos: O primeiro  prende-se com o  facto de não existirem culturas estanques,  fixas no tempo e no espaço. A  cultura é um processo que se constroi nas interações  entre o local e o global. Assim sendo o desafio que se coloca  é de encontrar o justo equilibrio entre a presevação do  tradicional  e a incorporação de inovações.  


O segundo prende-se com as politicas culturais adoptadas em São Tomé e Principe.  Estas, embora, supostamente, relacionadas com as transformações políticas e económicas ocorridas ao longo da historia da jovem República, não foram capazes de as acompanhar. O desafio está pois na compreensão deste paradoxo e na consequente proposição de  soluções. 


As mudanças políticas e económicas nas ilhas, caracterizam-se  pela adopção de uma estratégia neo-liberal marcada pela  passagem da fase socialista à fase neo-liberal. 

Na primeira República, fase socialista, a influência do Estado na cultura,  centrava-se numa  tutela forte da criação artistica, orientada para uma intenção ideologica e propangadista. A título de exemplo eram postos à disposição dos grupos culturais e do povo em geral transportes que os  levavam às praças da cidade, em datas festivas, como o 1° de Maio, dia internacional do trabalhador e o 30 de Setembro, dia da reforma agrária. O Estado colocava, assim, à disposição dos artistas, meios generosos, (roupas, instrumentos), para a sua  produção. Em suma a politíca cultural baseava-se numa intervenção forte do Estado.


Ora na segunda Republica, a estratégia adoptada pelos politícos  são-tomenses baseava-se nos remédios neo-liberais tradicionais, redução da participação estatal na actividade económica e a privatização. Enquanto a concepção da cultura assenta num caracter politico - ideologico, a política cultural adoptada é relacionada com o projecto de Estado-Nação. Trata-se da ideia segundo a qual compete ao Estado proteger a cultura como forma de salvaguarda da própria identidade cultural. O que constitui, de resto, uma função vital do próprio Estado, pois a sua concepção funda-se na ideia da nação como identidade colectiva. Basta para isto olhar para os últimos programas do  governo constitucional da República de STP. 


Contrariamente a outros sectores da economia onde há ganhos de produtividade, em relação à cultura, essa possibilidade é limitada. Não sendo, assim, possível pensar em ganhos de produtividade, a prazo, sem a introdução de subsidios que  levariam ao engrandecimento do sector. Em STP, ao mesmo tempo que se introduzem medidas de reajustamento económico  assiste-se ao agudizar da dependência do país à ajuda externa, ajuda essa, inicialmente específica e dirigida a  projetos de cariz económico e social. Daí que as dificuldades de se proceder à ajuda pública para a cultura serem iminentes.  Aí reside o paradoxo. Logo, instala-se a necessidade de se procurar fontes de financiamento alternativas para a cultura, nem sempre evidentes para os governantes, pois continuava-se a insistir numa visão politico-ideológica da cultura.  


O desafio imposto pela própria noção de cultura,  pelas condições históricas que nortearam as politicas culturais até então e pelo imaginário politico cultural, centra-se na mudança de mentalidades dos “fazedores de cultura” que colocam os interesses individuas acima dos interesses colectivos, e, na  invenção de uma nova política cultural e uma nova cultura política. Para isto, os orgãos de comunicação social jogam um papel importante, através da intensificação de uma informação limpa e objectiva.  


A relação entre a “cultura” e a “comunicação social” é , nos nossos dias, incontestável. Pois,  algumas das transformações culturais importantes resultam,  das mutações nas redes tecnológicas da comunicação. Estas, afectam a percepção das  culturas locais,   da sua propria  existência, e do seu papel na  construção das identidades,  via  construção do espaço virtual. A responsabilidade  do jornalista, torna-se, assim, acrescida atravès do  papel  embrionário na  construção de um novo espaço público e de uma nova cidadania, pela mobilzação de um grande numero de actores sociais. 


Durante estes sete meses pretendeu-se  básicamente mostrar que com preserverança, dedicação  e força de vontade é possivel fazer-se muito... muito ficou por fazer... um exemplo interessante é que constatou-se que os defensores da tradição pura e dura, enviam  sempre que podem os seus filhos para passarem as férias em Portugal. Poucos destes jovens conhecem a ilha do Principe. Em colaboração com uma Organização internacional pretendiamos organizar uma colónia de férias na ilha do Principe. Por fazer ficaram igualmente uma série de projetos para o museu, entre os quais a recuperação do próprio edificio... ficaram ainda por fazer todos os projetos em torno do patrimonio fisico, natural e intangivel e a ausência do Téla-Non na divulgação dos embriões das reais mudanças ...

-Fim-

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»(V)


Actividades realizadas pela DGC


Certo os músicos manifestaram-se no dia 9 de Maio de 2011. Entretanto, em alusão ao Dia Internacional dos Museus  - 18 de Maio -  sob o lema “Museus e memória”, entre os dias 14 e 18 de Maio de 2011, uma série de actividades teve lugar: actuaram cerca de 10 grupos culturais, com maior
 incidência para as práticas em extinção como o Plomon Déçu;  jogo de cacete, Quinà;  Ússua,  entre outras. 

A banda militar, interpretou um troço de música clássica em homenagem ao compositor São-tomense Viana da Mota. Cinco conferências tiveram lugar, com base nas diferentes salas do museu: arte sacra e memória, ministrada pelo Sr. Padre Miguel, Música e memória ministrada por três gerações de músicos: Zé Aragão; Antonio Leite e Juvenal Rodrigues filho (ao qual assistiram alguns dos músicos que manifestaram-se contra a DG. Esta conferência foi tão bem sucedida que continuou no dia seguinte); Roças e memórias: STP, plantas e povos origens e consequências, por Iolanda Aguiar e Museus e memórias ministrada por antigos e actuais funcionários do Museu Nacional; 

nomedamente Armindo Aguiar ex- Director Geral da Cultura; Cerineu de Barros o mais antigo funcionário do museu e Djajingo Neto, técnico de conservação. Note-se que pela primeira vez neste género de eventos os conferencistas receberam um subsidio, sob forma de estimulo ao trabalho intelectual. Para além disto houve visitas guiadas para os alunos de 4 escolas primárias com particular incidência para duas escolas longínquas: Roça Anselmo Andrade e Capela. 


Os alunos tiveram a oportunidade de participar nas oficinas de som, onde um sobrevivente do massacre de 1953 os ensinara a fabricar e tocar  instrumentos de corda, tocar flautas e instrumentos de percursão. Todas estas ações foram realizadas com fundos extra – Orçamento Geral do Estado, angariados pela DG. As conferências foram tão ricas que se  pretendia fazer uma publicação. Portanto, não deixa de ser estranho que se refira ainda  à equipa da DG como inexperiente e incapaz de organizar o desfile do 12 de Julho. Aliàs, dá-se ao grande público a possibilidade de  comparar a organização do desfile feito pela  DGC  na cerimonia oficial do 12 de Julho e a cerimonia oficial do 3 de Fevereiro. Para além da Cerimónia oficial a DG dirigindo uma equipa de jovens voluntários, pela primeira vez


colocou os sobreviventes do 3 de Fevereiro no centro das comemorações, dando visibilidade às condições precárias em que vivem alguns deles. Levou os alunos das escolas primárias para ver como viviam os nossos sobreviventes. Deu-lhes a palavra e organizou um almoço em sua homenagem. Uma musica foi especialmente composta para os sobreiventes pelo compositor e cantor Nilo Jaleco. Nos claustros do Museu Nacional, foram, igualmente  homenageados com um concerto oferecido pelos coros de diferentes igrejas, a saber: Maná, Nova Apostolica e Evangéliga. Um dos pontos altos foi a conferência proferida pelo historiador  Carlos Neves, intitulada a “A Guerra  Ideologica  do massacre 53” em presença dos sobreviventes e mediada pela jornalista São Deus Lima. Nenhuma referência a tudo isto pôde-se ler no seu Jornal. Dois meses depois do afastamento da DG dirija-se às comunidades onde tal aconteceu e colha informações sobre a ex-DG. Colha informações junto aos, motoristas, aos artesãos, aos músicos, alguns dos quais foi-lhes dito que a DG demitiu-se, outros que nem sequer sabiam que haviam mudado a Direção.
4 de Janeiro de 2011 a sala do museu repleta esteve, (houve pessoas assentadas nas escadas), para assistirem à conferencia sobre Rei Amador,

proferida por três jovens recém formados, em Cuba (dois sociólogos e um jurista), sob orientação da então DG.  Uma inovação foi introduzida, pela primeira vez em STP, brindou-se com um vinho da Palma de Honra, em substituição do tradicional Porto de Honra, herança colonial.


 Serviu-se, com todo o cerimonial, um Vinho da Palma doce, da Região de Batepá acompanhado de produtos nacionais, como a cola e o gengibre,  para degustação. Nem uma referência no jornal da “nossa terra” (Téla-Non).
26 de Novembro de 2010 dia aniversário do Acordo de Argel, a Casa da Cultura abriu as suas portas para um sarau cultural sui géneris, apresentado pela jornalista São Deus Lima, com concurso alusivo ao dito acordo  e oferta de livros.  Nada no Téla-Non.



Relativamente ao Museu Nacional, importa assinalar que desde Janeiro de 2011 vinha conhecendo um aumento gradual do número de visitas.  Assim, em periodos iguais deste e do ano passado, as entradas evoluiram da seguinte forma:

 Janeiro – Maio de 2010 : 560 nacionais e 634 estrangeiros;
Janeiro – Maio de 2011: 1477 nacionais e 782 estrangeiros.

Durante os 5 dias relativos às comemorações do Dia Internacional dos Museus, fato inédito no país, a média de visitantes por dia foi de 103,6 pessoas.  Note-se que a média anual no ano transato foi de 7,1 pessoas por dia.  

No que concerne ao reforço institucional da DGC, três jovens técnicos foram contratados.  Sendo uma jovem licenciada em Direito, para se ocupar da propriedade intelectual (literária e artística); um jovem sociólogo que se ocuparia de questões relacionadas com o património e um jovem gestor e músico para reforçar o já existente departamento de promoção artística.

No plano internacional a partcipação da DG foi marcante, com apenas duas missões, uma em Dezembro de 2010 e outra em finais de Maio de 2011. Ao regressar da missão a Porto Novo, Benin, a DG foi portadora de uma carta  parabenizando o Senhor MECF, entre outros fatos, pela distinta prestação  da DG. Em relação à primeira missão outras proposições importantes de trabalho são de assinalar. Verbas tiveram que ser  devolvidas... e outras perdidas... pela interrupção abrupta dos projetos.

As obras realizadas neste curto espaço de tempo falam por si... mas para mim o mais gratificante foi ter instituido as tardes de reflexão, lugar onde  os jovens quadros estudavam os dossiers e partilhavam as experiências adquiridas em missões ao exterior.

Nada disto foi referenciado no Téla-Non... Utilizar o potencial crítico da experiência estética para iluminar as verdades comunicativas, seria uma ajuda indeniável para melhor poder cumprir com o seu trabalho... Uma analise imparcial e mais profunda teria um papel de proeminente relevância para a preservação, valorização e divulgação do patrimonio cultural sob todas as suas vertentes.

continua...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»(IV)

A palavra

No continente africano  a “palavra” é utilizada para estabelecer consensos. Existe por exemplo “l’arbre à palabre”, (árvore da palavra), na África Central e a “B’andhla” em Moçambique. As pessoas sentam-se debaixo de uma árvore para discutirem assuntos relacionados com a vida da “comunidade” até chegarem a consenso. Os nossos anciãos dizem que em Sao Tomé algo semelhante ocorria no passado. A palavra não era utilizada para fazer intrigas e semear a discordia mas para buscar um consenso nas e entre as famílias. Hoje, a “palavra” está ausente da nossa esfera pública e nos circulos políticos ela é negada a quem de direito. A “palavra” deixa de ser o lugar do politico para ser substituida pela intriga e o consequente linchamento do indíviduo, construindo o caminho para “a caça às bruxas”.
A DG,  foi ouvida por ninguém. Nem membros do governo nem o jornalista a interpelaram. Os fatos levam a crer  que as  autoridades têm muitas dificuldades em ouvir e auscultar opiniões. Confiam demasiado no cálculo político e, por vezes, esquecem que a sua missão primária não é fazer o cidadão feliz com as suas próprias realizações, mas sim garantir as condições da nossa liberdade. E esta passa pelo nosso direito à razão. Entenda-se aqui, o direito à razão, como um direito fundamental, que para além da  capacidade de discutir segundo as regras da lógica, constitui um reconhecimento da minha própria pessoa como ponto de partida de uma opinião – que resulta da minha reflexão – mas também reconhece a existência de outros como possíveis pontos de partida de outras opiniões também fruto de reflexão. São o resultado dos espaços de formação de opinião que nos identifica ao mesmo tempo que nos obriga a reconhecer os outros.
O jornalista do Télanon ao apregoar a inutilidade de uma atitude crítica e do diálogo, não está a ser analiticamente perspicaz. Deixando assim transparecer uma falha no desempenho do seu papel.

Continua ...

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios» (III)



 O mito da “família”

O jornalista refére-se varias vezes ao fato da DG ser prima do PM. Trata-se de uma conclusão fatual.  Verdadeira. A questão que se coloca é de saber qual a relação entre este fato e a demissão da DG? Sera que a DG foi demitida por ser prima do PM?

A vida familiar em STP, conheceu depois de três decadas uma transformação, que a sociedade insiste em não querer ver, persistindo sobre o falso paradigma dos “laços sanguineos”, como evidência o jornalista do Téla-Non.
Sem negar a importância dos fatos, para compreender a evolução recente da estrutura famíliar em STP, é bom saber que a sua sistemática evocação, contribui para escamutear processos sociais mais amplos e  determinantes na estruturação da vida famíliar e consequentemente da sociedade. É o caso do papel jogado pelo partido único, numa primeira fase, na recomposição das famílias sãotomenses e, numa segunda fase, o papel dos partidos políticos no significado mesmo da noção de família. 
O governo atual,  por albergar no seu seio alguns “indepentendes”,  através da sua ação de assistência e de regulação, está construindo a sua propria família. Os partidos políticos através da sua ação  constituem uma família em sentido lato. Por exemplo, os membros de um mesmo partido frequentam os mesmos espaços públicos e privados. É pois comum partilharem momentos importantes em torno de uma refeição ou de uma bebida, conhecerem a família restrita de uns e de outros com quem têm afinidades. Ora, no que toca a Iolanda Trovoada Aguiar, isso não se aplica, pois, em relação a Patrice Trovoada, esse  tipo de laços não existe. Iolanda não conhece a casa de Patrice Trovoada, não convive com a sua família em sentido restrito... Acresce ao fato de ter sido convidada para assumir as funções de DG pelas mãos de alguém fora da família política, família restrita, (marido, esposa e filhos), ou da família em sentido lato, (avós, pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos, etc.), do Senhor PM, Patrice Trovoada. 
Por outro lado, aquele que desempenhou as funções de Assessor da DG, (embora, mais tarde, tivesse preferido as funções de Director do Centro de Investigação Social, o que não tem mal algum), também seu primo é. Partilhamos momentos importantes no seio da familia: nascimentos, aniversarios, funerais... Continuando a saga familiar...o atual Coordenador Geral da Cultura, é igualmente  primo da ex-DG...  No seio do MECF outros primos por lá estão...
Note-se que a sociedade são-tomense não foi formada com base na família no sentido estrito de   “filiação ou parentesco”, mas sim no sentido de “propriedade”. As famílias construídas nos terreiros das roças eram  propriedades dos grandes senhores latifundiários. O que não impedia que se construissem famílias restritas consuante os interesses que estivessem em causa. A família está no fundamento da sociedade em STP, não pelos laços de parentesco, mas por relações de interesse e  económicas.
Sendo o MECF,  um dos ditos independentes do XIV governo constitucional, poder-se-ia levantar a hipótese,   da sua necessidade de afirmação face ao PM, promovendo o “linchamento simbólico” da  “Prima DG”.
Parafrazeando, ainda, o jornalista do Téla-non quando escreve “...escorregou no tapete da mudança e caiu”,  poder-se-ia levantar, ainda, uma segunda hipótese, a saber, o  afastamento da DG teria servido,  para desviar a atenção da família político-partidária do PM do seu  tropeço no ” tapete da mudança”, ao pretender candidatar-se a Presidente da Républica. 
Talvez por tudo isto o apelido da DG, - Trovoada – foi eliminado do seu nome completo, no documento oficial - despacho conjunto, assinado pelo PM e MECF, pondo fim à sua comissão de serviço.

continua...

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os "bodes expiatórios" (II)



A mudança

Ao chegar de uma missão no dia 6 de Junho de 2011, a DG é chamada ao gabinete do MECF, em presença do Senhor Director de Gabinete do MECF. O MECF pergunta à DG como correu a missão. Esta responde-lhe que tinha corrido muito bem. Tendo sido portadora de uma missiva dirigida ao MECF, entrega-a. O MECF lê-a. De seguida o MECF entrega à DG  um despacho conjunto assinado pelo Senhor Primeiro Ministro (PM) e pelo próprio MECF, dando por finda a sua Comissão de Serviço.
A DG, não foi ouvida por alguém, nem sequer foi-lhe concedido um único dia para poder fazer a passagem  dos dossiers.
O MECF disse-lhe, em termos gerais que era uma excelente funcionária, que no plano profissional não tinha razões de queixa mas não podiam ocupar o mesmo espaço porque a DG era incapaz de se relacionar com quem quer que fosse. Noutros termos o MECF disse que a DG cumprira todas as metas para as quais fora indigitada, mas que “não se relacionava com as pessoas”, era um “fator de desunião”. Para sustentar essa afirmação disse que a DG era a “causa do despedimento do Senhor Director da Casa da Cultura”; acrescentou que “apenas trabalhava e não falava com os outros”e que “não se dava bem com funcionário algum”.
Continuando o rol das “incriminações” o MECF fez referência à mensagem que lhe fora enviada pela DG  na terça-feira, 31 de Maio de 2011. O Senhor Ministro não parecia incomodado com o conteúdo da dita, mas sim com o fato de esta ter sido enviada em cópia para a Senhora Secretária Geral do Ministério da Educação Cultura e Formação e para o Senhor Director de Gabinete, do MECF.
Ora, a partir de 23 de Fevereiro do ano em curso, uma das supracitadas entidades estava invariavelmente presente a cada vez que a DG tivesse que se reunir com o Senhor MECF. A leitura dessa atitude recorrente faz pensar que existe confiança. Em sociologia a confiança não é somente um elemento psicológico dos agentes é um processo inerente à reprodução e à constituição das sociedades, jogando um papel importante na sedimentação da ação coletiva. Assim sendo, o fato da Secretária Geral e do Diretor de Gabinete, estarem invariávelmente presentes nas reuniões de trabalho da DG com o MECF, significa que  estes quatro indíviduos estavam engajados num mesmo processo consolidado pelos laços de interacção criados. Nesta ordem de ideias,  todos faziam parte do mesmo grupo social e por isto, partilhavam os mesmos valores. Acresce ao fato que as mensagens de trabalho com cópia para a Secretária Geral terem passado  a ser rotineiras desde  finais de Fevereiro.
De fato no dia 27 de Maio de 2011, em presença do Director de Gabinete, o Sr. Ministro da Educação e Cultura fez referência a um e-mail que esta havia enviado no principio do mesmo mês de Maio a propósito do festival Gravana, com cópia para a Secretária Geral e para a Senhora Directora do Turismo e esposa do Senhor Ministro MECF. O Senhor Ministro disse na altura que assuntos de Estado não deveriam ser enviados a pessoas estranhas aos serviços. Pelo que depreendi que a única pessoa estranha ao Ministério da Educação Cultura e Formação  seria a Senhora Directora Geral do Turismo que curiosamente fazia parte da comissão organizadora, bem como o filho do  o actual Secretário Geral da Comissão Nacional para a UNESCO, (COMNAT)
O MECF mostrou-se indignado pelo fato de a DG ter divulgado o conteúdo da mensagem, para o exterior, coisa que a DG não fez. Apenas as duas personalidades do Ministério supracitadas receberam a cópia da mensagem. Como é que essa cópia foi parar aos media?
Referindo-me ao contéudo da dita mensagem que continha 16 pontos, conforme cita o jornalista do Téla-Non, justificando as razões da tomada de posição da ex-DG, o Senhor Ministro apenas se interessou pelos pontos em que se lia “estarei aí na sexta-feira para resolver a questão” e mais adiante “informarei ao Senhor Reginaldo D’Alva –  então técnico da Direção Geral da Cultura (DGC) -para que suspenda todas actividades a realizar com o Sr. Major”.  Ao que o Sr Ministro, visivelmente perturbado e num tom irreconhecivel, perguntou:  “afinal quem manda aqui eu ou você, quem é o Ministro?” A fazer juz a essa reação do Senhor Ministro regista-se um problema de autoridade.

Ora, é évidente que a divisão social do trabalho é fundamental, para o bom termo das tarefas em qualquer organização. Ela permite a regulamentação do trabalho,  facilitando os intercâmbios com os outros  e agilizando a resolução dos problemas  dentro e fora da organização.

No Téla-Non lê-se  “a polémica segundo fonte governamental arrebentou quando a DG pediu explicações ao ministro atravès de uma carta, sobre a decisão de Olinto Daio em indigitar o cidadão Ayres Major, para organizar os festejos da independencia nacional

Pelo contrário, na mensagem dita polémica, a DG justifica o fato de não achar benéfico que pessoas alheias à DGC, estejam a imiscuir-se no trabalho dessa Direção. Com efeito, a DG pedia um voto de confiança para a DGC e a sua jovem equipa, que vinham fazendo um trabalho de terreno, destinado a compreender a importância de cada  grupo cultural nas suas respectivas comunidades. Considerava este ser igualmente um fator influente na escolha dos grupos para o desfile na Praça da Independência. A DG pretendia igualmente alertar para o fato de que não basta mudar as chefias para que haja mudanças. Noutros termos não basta mudar  de Director Geral da Cultura para que se verifiquem mudanças na Direção Geral da Cultura.

Note-se que o Senhor Major, referenciado no supracitado artigo, funcionário reformado da DGC foi durante cerca de 18 anos Assessor da Diretora Geral da Cultura que precedeu Iolanda Aguiar e é o actual Secretário Geral da Comissão Nacional para a UNESCO, (COMNAT). No dia 31 de Dezembro de 2011, este, havia informado à então DG que pretendia demitir-se. Arguiu que precisava de deslocar-se a Portugal por motivos de saúde.  Por isso, afastou-se de livre e espontânea vontade da DGC, na altura da preparação das festividades do 3 de Fevereiro que, curiosamente, coincidiu com a doença de vários funcionários,... quiçá uma epidemia coletiva de mau presságio na DGC que, felizmente, serviu para confirmar a competência da DG e da sua equipa.

continua...


A Caça às Bruxas: como os rumores fabricam bodes expiatorios (I)

Niveis de plausibilidade
O primeiro nível tem a ver com o problema da generalização grosseira, “O Téla-Non sabe que a Direcção de Iolanda Aguiar já vinha sendo contestada pelos músicos, compositores, actores interpretes e também pelos funcionários da Direcção Geral da Cultura”. O artigo em causa peca pela generalização. Sabe-se que a Direcção vinha sendo contestada pelos Funcionários da DGC, quais, quantos, todos? A titulo de exemplo, não se pretende dizer aqui que não tenha havido contestação por parte dos funcionários, mas que o Téla-Non generalizou o problema. Não se pretende, igualmente, dizer que não houve contestação dos músicos. Mas, interessa saber no universo dos músicos, quantos teriam contestado, foram todos os músicos? Estas perguntas teriam sido úteis e teriam obrigado o jornalista e suas fontes a veicularem informações fundamentadas.
Num segundo nível a informação para além de não fundamentada é extremamente insidosa. Envolve o problema da plausibilidade. Basta que todo o mundo creia ... para que ganhe o estatuto de verdade. Mas o que é plausível, não é necessáriamente correto. O argumento que o jornalista do Téla-Non apresentou, apoiando-se em fonte do governo, é na verdade extremamente falacioso, faz um apelo a uma circunstância piedosa para reclamar razão... “O Ministro da Cultura decidiu apostar no cidadão Ayres Major, para organizar os festejos da Indepêndencia Nacional, alegando inexperiência dos novos quadros na Direcção Geral da Cultura”. Neste caso específico trata-se da ideia que o cidadão em questão veio salvar a estrutura defeciente posta em prática pela então DG sob autoridade do próprio MECF. A mesma DG e a sua jovem equipa com créditos confirmados em diversas áreas, destacando-se a organização de eventos como o 26 de Novembro, (aniversário da assinatura do Acordo de Argel), o 3 de Fevereiro, (efeméride alusiva ao Massacre de Batepá) e o 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus, demosntrando assim serem sujeitos capazes!!!
O jornalista prossegue: “A engenheira agronoma... travou nos últimos meses intenso conflito com MECF (...) O Ministro decidiu pôr fim ao reinado breve e conflituoso (...)” Esta afirmação ganha a sua plausibilidade na base de dois truques de argumentação. O primeiro, a arte de atacar pessoalmente uma putativa autoridade e não suas qualidades. Isto é encetar ataques pessoais e não atacar o argumento. Se bem que os ataques pessoais não retirem o mérito do argumento quando muito revelam o caráter dos arguentes. O segundo, trata-se de veicular a ideia de que a DGC tem um carácter conflituoso, noutros termos a “DG é conflituosa e foi por isto que esteve apenas cerca de 7 meses à frente da DGC, o seu caracter impedi-a de interagir com os outros - insociável. O jornalista, com base nessa falsa premissa, insinua-se ao leitor, veiculando a ideia de que a DG é intratàvel.
Uma outra manifestação de plausibilidade tem a ver também com uma falácia, o argumento “ad populum”. Este consiste no apelo à opinião geral: todo o mundo sabe que... Pois todo o mundo (o Téla – Non, todos os músicos, os compositores, os actores, os interpretes e os funcionarios da DGC) sabia/sabe que a “DG é conflituosa”, por isto... a polémica rebentou” porque “conflituosa” que é, “pediu explicações ao Ministro...” só poderia estar mais uma vez, como era hábito, a faltar o respeito às autoridades, subentenda-se. Logo os relatos de que a DG contestada é conflituosa e desrespeitou mais uma vez o MECF, ... só podem ser verdade. No entanto, importa salientar que há diferença entre supôr que um depoimento seja verdade e verificar se ele corresponde à realidade.

continua ...

justificação

Tentei publicar em alguns jornais nacionais o artigo “A caça às Bruxas: como os rumores fabricam os bodes expiatorios” em resposta ao artigo que acabram de ler , mas foi completamente impossivel. Razão pela qual publica-lo-ei, aqui, neste blog, em seis partes:
1. Niveis de plausibilidade
2. A mudança
3. O mito da “família”
4. A palavra
5. Actividades realizadas pela DGC
6. Breves considerações sobre a Cultura

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»


No dia 10 de Junho de 2011, o jornalista Abel Veiga , publicou um artigo no jornal digital Téla Non, intitulado “Crise no Ministério da Educação Cultura e Formação”. O artigo em questão refere-se à demissão da Directora Geral da Cultura, (adiante designada DG), das suas funções em carta assinada pelo Primeiro Ministro, (adiante designado PM) e pelo Ministro da Educação Cultura e Formação, (adiante designado MECF). Afirma ter sido o primeiro elemento da familia da mudança a cair do poder. Descreve a ex-DG como “personagem conflituosa e desrespeitadora”. Acusa-a de, através de uma carta, ter pedido explicações ao MECF pela sua tomada de decisão em relação às festividades alusivas à celebração da independência nacional. Tudo isto fazendo ressaltar no plano simbólico os laços de parentesco entre o PM e a DG. O objectivo foi designar um culpado a uma massa mediática, para um fenómeno que desconhecia... Entretanto torna-se difícil apreciar a plausibilidade dos argumentos apresentados, pois estes parecem ser motivados por juizos de valor e digamos, falta de informação para avalia-los.

A questão que aqui se coloca, é de saber se os fatos, utilizados pelas fontes de informação do Téla- Non são sólidos: como se justifica o juízo de valor sobre o despedimento precipitado da DG e porque se deve fazer o que deve ser feito. O que se pretende dizer aqui não é, por exemplo, que a DG não seja família do PM, mas que as fontes que informaram o Téla-Non e o próprio jornalista tiraram conclusões precipitadas. Prestam, consequentemente, um mau serviço à esfera pública.

Nestes termos, utilizando, de uma prerrogativa que me é acordada, enquanto cidadã deste país, permito-me utlizar o “direito de resposta”. Procurarei, pois, na medida do possível, pautar por uma atitude elegante, de elevada cultura de debate público, tentando policiar o meu instinto acusatório – “tipo só pode ser”...

Tentarei, por conseguinte, exercitar o meu espírito crítico interpelando o jornalista do Téla – Non a dois níveis principais que passo a apresentar, para depois tecer algumas considerações, sobre a minha visão da cultura, aquilo que gostaria de ter feito, aquilo que uma imprensa mais responsável pode contribuir para a cultura em STP e, mais especificamente, para a cultura politica..

Antes porém , leiam o “artigo” primeiro e vemo-nos mais abaixo:

A Directora Geral da Cultura Yolanda Aguiar foi demitida das funções através de um despacho conjunto assinado pelo primeiro-ministro Patrice Trovoada e o ministro da Educação Cultura e Formação. Yolanda Aguiar é o primeiro elemento da família da mudança a cair do poder.

O caldo entornou-se no Ministério da Educação Cultura e Formação, Yolanda Aguiar, prima do primeiro-ministro Patrice Trovoada nomeada Directora Geral da Cultura, em Outubro do ano passado escorregou no tapete da MUDANÇA e caiu.

A engenheira agrónoma que o Governo da Mudança nomeou como Directora da Cultura, travou nos últimos meses intenso conflito com o Ministro da Educação Cultura e Formação Olinto Daio. A polémica segundo fonte governamental, arrebentou quando a directora da cultura pediu explicações ao ministro através de uma carta, sobre a decisão de Olinto Daio em indigitar o cidadão Ayres Major, para organizar os festejos do dia da independência nacional, 12 Julho, no que concerne a participação dos grupos culturais no evento.

Olinto Daio não gostou, da missiva de 16 pontos, da Directora da Cultura Yolanda Aguiar, sobretudo numa das passagens em que a directora da cultura, faz referência ao slogan do Governo da Mudança. “Deixam-nos Trabalhar”. Yolanda Aguiar inspirada no Slogan pediu ao ministro que a “deixasse trabalhar “, sem sua superior interferência.

O Ministro Daio, não conseguiu digerir a situação, e decidiu pôr fim ao reinado breve e conflituoso da prima de Patrice Trovoada, na direcção da Cultura. O Téla Nón sabe que a direcção de Yolanda Aguiar já vinha sendo contestada pelos músicos, compositores, actores, interpretes e também pelos funcionários da direcção da cultura.

A fonte do Téla Nón explicou ainda que o Ministro da Cultura decidiu apostar no cidadão Ayres Major, para organizar os festejos da independência nacional, alegando inexperiência dos novos quadros da Direcção Geral da Cultura.

Por esta e outras razões, Patrice Trovoada primeiro-ministro e chefe do governo, decidiu aceitar a demissão proposta pelo ministro da Educação Cultura e Formação. O decreto governamental que demite a directora da cultura e que o Téla Nón teve acesso, é assinado pelo ministro Olinto Daio e pelo primo da Directora, o Primeiro-ministro Patrice Trovoada.

Sinal claro de que o Slogan do Governo, “deixam-nos trabalhar”, não deve ser motivo de chacota. Seja em caso de laços de sanguinidade, ou comungando a mesma coloração política, a regra é “falhou comeu”.



o som do silêncio