sábado, 3 de setembro de 2011

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»(VI)


Breves considerações sobre a  Cultura


A visão da cultura, da DG, ia forçosamente,  ao encontro da estratégia defenida pelo MECF, cujo objectivo é reforçar a identidade de STP.  Basicamente é necessário que se compreenda que “a crise na cultura” não está na manifestação dos músicos, nem no despedimento de A ou B. 

Para se encontrar soluções para a crise da cultura é  necessario primeiro comprender-se dois pontos: O primeiro  prende-se com o  facto de não existirem culturas estanques,  fixas no tempo e no espaço. A  cultura é um processo que se constroi nas interações  entre o local e o global. Assim sendo o desafio que se coloca  é de encontrar o justo equilibrio entre a presevação do  tradicional  e a incorporação de inovações.  


O segundo prende-se com as politicas culturais adoptadas em São Tomé e Principe.  Estas, embora, supostamente, relacionadas com as transformações políticas e económicas ocorridas ao longo da historia da jovem República, não foram capazes de as acompanhar. O desafio está pois na compreensão deste paradoxo e na consequente proposição de  soluções. 


As mudanças políticas e económicas nas ilhas, caracterizam-se  pela adopção de uma estratégia neo-liberal marcada pela  passagem da fase socialista à fase neo-liberal. 

Na primeira República, fase socialista, a influência do Estado na cultura,  centrava-se numa  tutela forte da criação artistica, orientada para uma intenção ideologica e propangadista. A título de exemplo eram postos à disposição dos grupos culturais e do povo em geral transportes que os  levavam às praças da cidade, em datas festivas, como o 1° de Maio, dia internacional do trabalhador e o 30 de Setembro, dia da reforma agrária. O Estado colocava, assim, à disposição dos artistas, meios generosos, (roupas, instrumentos), para a sua  produção. Em suma a politíca cultural baseava-se numa intervenção forte do Estado.


Ora na segunda Republica, a estratégia adoptada pelos politícos  são-tomenses baseava-se nos remédios neo-liberais tradicionais, redução da participação estatal na actividade económica e a privatização. Enquanto a concepção da cultura assenta num caracter politico - ideologico, a política cultural adoptada é relacionada com o projecto de Estado-Nação. Trata-se da ideia segundo a qual compete ao Estado proteger a cultura como forma de salvaguarda da própria identidade cultural. O que constitui, de resto, uma função vital do próprio Estado, pois a sua concepção funda-se na ideia da nação como identidade colectiva. Basta para isto olhar para os últimos programas do  governo constitucional da República de STP. 


Contrariamente a outros sectores da economia onde há ganhos de produtividade, em relação à cultura, essa possibilidade é limitada. Não sendo, assim, possível pensar em ganhos de produtividade, a prazo, sem a introdução de subsidios que  levariam ao engrandecimento do sector. Em STP, ao mesmo tempo que se introduzem medidas de reajustamento económico  assiste-se ao agudizar da dependência do país à ajuda externa, ajuda essa, inicialmente específica e dirigida a  projetos de cariz económico e social. Daí que as dificuldades de se proceder à ajuda pública para a cultura serem iminentes.  Aí reside o paradoxo. Logo, instala-se a necessidade de se procurar fontes de financiamento alternativas para a cultura, nem sempre evidentes para os governantes, pois continuava-se a insistir numa visão politico-ideológica da cultura.  


O desafio imposto pela própria noção de cultura,  pelas condições históricas que nortearam as politicas culturais até então e pelo imaginário politico cultural, centra-se na mudança de mentalidades dos “fazedores de cultura” que colocam os interesses individuas acima dos interesses colectivos, e, na  invenção de uma nova política cultural e uma nova cultura política. Para isto, os orgãos de comunicação social jogam um papel importante, através da intensificação de uma informação limpa e objectiva.  


A relação entre a “cultura” e a “comunicação social” é , nos nossos dias, incontestável. Pois,  algumas das transformações culturais importantes resultam,  das mutações nas redes tecnológicas da comunicação. Estas, afectam a percepção das  culturas locais,   da sua propria  existência, e do seu papel na  construção das identidades,  via  construção do espaço virtual. A responsabilidade  do jornalista, torna-se, assim, acrescida atravès do  papel  embrionário na  construção de um novo espaço público e de uma nova cidadania, pela mobilzação de um grande numero de actores sociais. 


Durante estes sete meses pretendeu-se  básicamente mostrar que com preserverança, dedicação  e força de vontade é possivel fazer-se muito... muito ficou por fazer... um exemplo interessante é que constatou-se que os defensores da tradição pura e dura, enviam  sempre que podem os seus filhos para passarem as férias em Portugal. Poucos destes jovens conhecem a ilha do Principe. Em colaboração com uma Organização internacional pretendiamos organizar uma colónia de férias na ilha do Principe. Por fazer ficaram igualmente uma série de projetos para o museu, entre os quais a recuperação do próprio edificio... ficaram ainda por fazer todos os projetos em torno do patrimonio fisico, natural e intangivel e a ausência do Téla-Non na divulgação dos embriões das reais mudanças ...

-Fim-

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»(V)


Actividades realizadas pela DGC


Certo os músicos manifestaram-se no dia 9 de Maio de 2011. Entretanto, em alusão ao Dia Internacional dos Museus  - 18 de Maio -  sob o lema “Museus e memória”, entre os dias 14 e 18 de Maio de 2011, uma série de actividades teve lugar: actuaram cerca de 10 grupos culturais, com maior
 incidência para as práticas em extinção como o Plomon Déçu;  jogo de cacete, Quinà;  Ússua,  entre outras. 

A banda militar, interpretou um troço de música clássica em homenagem ao compositor São-tomense Viana da Mota. Cinco conferências tiveram lugar, com base nas diferentes salas do museu: arte sacra e memória, ministrada pelo Sr. Padre Miguel, Música e memória ministrada por três gerações de músicos: Zé Aragão; Antonio Leite e Juvenal Rodrigues filho (ao qual assistiram alguns dos músicos que manifestaram-se contra a DG. Esta conferência foi tão bem sucedida que continuou no dia seguinte); Roças e memórias: STP, plantas e povos origens e consequências, por Iolanda Aguiar e Museus e memórias ministrada por antigos e actuais funcionários do Museu Nacional; 

nomedamente Armindo Aguiar ex- Director Geral da Cultura; Cerineu de Barros o mais antigo funcionário do museu e Djajingo Neto, técnico de conservação. Note-se que pela primeira vez neste género de eventos os conferencistas receberam um subsidio, sob forma de estimulo ao trabalho intelectual. Para além disto houve visitas guiadas para os alunos de 4 escolas primárias com particular incidência para duas escolas longínquas: Roça Anselmo Andrade e Capela. 


Os alunos tiveram a oportunidade de participar nas oficinas de som, onde um sobrevivente do massacre de 1953 os ensinara a fabricar e tocar  instrumentos de corda, tocar flautas e instrumentos de percursão. Todas estas ações foram realizadas com fundos extra – Orçamento Geral do Estado, angariados pela DG. As conferências foram tão ricas que se  pretendia fazer uma publicação. Portanto, não deixa de ser estranho que se refira ainda  à equipa da DG como inexperiente e incapaz de organizar o desfile do 12 de Julho. Aliàs, dá-se ao grande público a possibilidade de  comparar a organização do desfile feito pela  DGC  na cerimonia oficial do 12 de Julho e a cerimonia oficial do 3 de Fevereiro. Para além da Cerimónia oficial a DG dirigindo uma equipa de jovens voluntários, pela primeira vez


colocou os sobreviventes do 3 de Fevereiro no centro das comemorações, dando visibilidade às condições precárias em que vivem alguns deles. Levou os alunos das escolas primárias para ver como viviam os nossos sobreviventes. Deu-lhes a palavra e organizou um almoço em sua homenagem. Uma musica foi especialmente composta para os sobreiventes pelo compositor e cantor Nilo Jaleco. Nos claustros do Museu Nacional, foram, igualmente  homenageados com um concerto oferecido pelos coros de diferentes igrejas, a saber: Maná, Nova Apostolica e Evangéliga. Um dos pontos altos foi a conferência proferida pelo historiador  Carlos Neves, intitulada a “A Guerra  Ideologica  do massacre 53” em presença dos sobreviventes e mediada pela jornalista São Deus Lima. Nenhuma referência a tudo isto pôde-se ler no seu Jornal. Dois meses depois do afastamento da DG dirija-se às comunidades onde tal aconteceu e colha informações sobre a ex-DG. Colha informações junto aos, motoristas, aos artesãos, aos músicos, alguns dos quais foi-lhes dito que a DG demitiu-se, outros que nem sequer sabiam que haviam mudado a Direção.
4 de Janeiro de 2011 a sala do museu repleta esteve, (houve pessoas assentadas nas escadas), para assistirem à conferencia sobre Rei Amador,

proferida por três jovens recém formados, em Cuba (dois sociólogos e um jurista), sob orientação da então DG.  Uma inovação foi introduzida, pela primeira vez em STP, brindou-se com um vinho da Palma de Honra, em substituição do tradicional Porto de Honra, herança colonial.


 Serviu-se, com todo o cerimonial, um Vinho da Palma doce, da Região de Batepá acompanhado de produtos nacionais, como a cola e o gengibre,  para degustação. Nem uma referência no jornal da “nossa terra” (Téla-Non).
26 de Novembro de 2010 dia aniversário do Acordo de Argel, a Casa da Cultura abriu as suas portas para um sarau cultural sui géneris, apresentado pela jornalista São Deus Lima, com concurso alusivo ao dito acordo  e oferta de livros.  Nada no Téla-Non.



Relativamente ao Museu Nacional, importa assinalar que desde Janeiro de 2011 vinha conhecendo um aumento gradual do número de visitas.  Assim, em periodos iguais deste e do ano passado, as entradas evoluiram da seguinte forma:

 Janeiro – Maio de 2010 : 560 nacionais e 634 estrangeiros;
Janeiro – Maio de 2011: 1477 nacionais e 782 estrangeiros.

Durante os 5 dias relativos às comemorações do Dia Internacional dos Museus, fato inédito no país, a média de visitantes por dia foi de 103,6 pessoas.  Note-se que a média anual no ano transato foi de 7,1 pessoas por dia.  

No que concerne ao reforço institucional da DGC, três jovens técnicos foram contratados.  Sendo uma jovem licenciada em Direito, para se ocupar da propriedade intelectual (literária e artística); um jovem sociólogo que se ocuparia de questões relacionadas com o património e um jovem gestor e músico para reforçar o já existente departamento de promoção artística.

No plano internacional a partcipação da DG foi marcante, com apenas duas missões, uma em Dezembro de 2010 e outra em finais de Maio de 2011. Ao regressar da missão a Porto Novo, Benin, a DG foi portadora de uma carta  parabenizando o Senhor MECF, entre outros fatos, pela distinta prestação  da DG. Em relação à primeira missão outras proposições importantes de trabalho são de assinalar. Verbas tiveram que ser  devolvidas... e outras perdidas... pela interrupção abrupta dos projetos.

As obras realizadas neste curto espaço de tempo falam por si... mas para mim o mais gratificante foi ter instituido as tardes de reflexão, lugar onde  os jovens quadros estudavam os dossiers e partilhavam as experiências adquiridas em missões ao exterior.

Nada disto foi referenciado no Téla-Non... Utilizar o potencial crítico da experiência estética para iluminar as verdades comunicativas, seria uma ajuda indeniável para melhor poder cumprir com o seu trabalho... Uma analise imparcial e mais profunda teria um papel de proeminente relevância para a preservação, valorização e divulgação do patrimonio cultural sob todas as suas vertentes.

continua...

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios»(IV)

A palavra

No continente africano  a “palavra” é utilizada para estabelecer consensos. Existe por exemplo “l’arbre à palabre”, (árvore da palavra), na África Central e a “B’andhla” em Moçambique. As pessoas sentam-se debaixo de uma árvore para discutirem assuntos relacionados com a vida da “comunidade” até chegarem a consenso. Os nossos anciãos dizem que em Sao Tomé algo semelhante ocorria no passado. A palavra não era utilizada para fazer intrigas e semear a discordia mas para buscar um consenso nas e entre as famílias. Hoje, a “palavra” está ausente da nossa esfera pública e nos circulos políticos ela é negada a quem de direito. A “palavra” deixa de ser o lugar do politico para ser substituida pela intriga e o consequente linchamento do indíviduo, construindo o caminho para “a caça às bruxas”.
A DG,  foi ouvida por ninguém. Nem membros do governo nem o jornalista a interpelaram. Os fatos levam a crer  que as  autoridades têm muitas dificuldades em ouvir e auscultar opiniões. Confiam demasiado no cálculo político e, por vezes, esquecem que a sua missão primária não é fazer o cidadão feliz com as suas próprias realizações, mas sim garantir as condições da nossa liberdade. E esta passa pelo nosso direito à razão. Entenda-se aqui, o direito à razão, como um direito fundamental, que para além da  capacidade de discutir segundo as regras da lógica, constitui um reconhecimento da minha própria pessoa como ponto de partida de uma opinião – que resulta da minha reflexão – mas também reconhece a existência de outros como possíveis pontos de partida de outras opiniões também fruto de reflexão. São o resultado dos espaços de formação de opinião que nos identifica ao mesmo tempo que nos obriga a reconhecer os outros.
O jornalista do Télanon ao apregoar a inutilidade de uma atitude crítica e do diálogo, não está a ser analiticamente perspicaz. Deixando assim transparecer uma falha no desempenho do seu papel.

Continua ...

A CAÇA ÀS BRUXAS : Como os rumores fabricam os « bodes expiatórios» (III)



 O mito da “família”

O jornalista refére-se varias vezes ao fato da DG ser prima do PM. Trata-se de uma conclusão fatual.  Verdadeira. A questão que se coloca é de saber qual a relação entre este fato e a demissão da DG? Sera que a DG foi demitida por ser prima do PM?

A vida familiar em STP, conheceu depois de três decadas uma transformação, que a sociedade insiste em não querer ver, persistindo sobre o falso paradigma dos “laços sanguineos”, como evidência o jornalista do Téla-Non.
Sem negar a importância dos fatos, para compreender a evolução recente da estrutura famíliar em STP, é bom saber que a sua sistemática evocação, contribui para escamutear processos sociais mais amplos e  determinantes na estruturação da vida famíliar e consequentemente da sociedade. É o caso do papel jogado pelo partido único, numa primeira fase, na recomposição das famílias sãotomenses e, numa segunda fase, o papel dos partidos políticos no significado mesmo da noção de família. 
O governo atual,  por albergar no seu seio alguns “indepentendes”,  através da sua ação de assistência e de regulação, está construindo a sua propria família. Os partidos políticos através da sua ação  constituem uma família em sentido lato. Por exemplo, os membros de um mesmo partido frequentam os mesmos espaços públicos e privados. É pois comum partilharem momentos importantes em torno de uma refeição ou de uma bebida, conhecerem a família restrita de uns e de outros com quem têm afinidades. Ora, no que toca a Iolanda Trovoada Aguiar, isso não se aplica, pois, em relação a Patrice Trovoada, esse  tipo de laços não existe. Iolanda não conhece a casa de Patrice Trovoada, não convive com a sua família em sentido restrito... Acresce ao fato de ter sido convidada para assumir as funções de DG pelas mãos de alguém fora da família política, família restrita, (marido, esposa e filhos), ou da família em sentido lato, (avós, pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos, etc.), do Senhor PM, Patrice Trovoada. 
Por outro lado, aquele que desempenhou as funções de Assessor da DG, (embora, mais tarde, tivesse preferido as funções de Director do Centro de Investigação Social, o que não tem mal algum), também seu primo é. Partilhamos momentos importantes no seio da familia: nascimentos, aniversarios, funerais... Continuando a saga familiar...o atual Coordenador Geral da Cultura, é igualmente  primo da ex-DG...  No seio do MECF outros primos por lá estão...
Note-se que a sociedade são-tomense não foi formada com base na família no sentido estrito de   “filiação ou parentesco”, mas sim no sentido de “propriedade”. As famílias construídas nos terreiros das roças eram  propriedades dos grandes senhores latifundiários. O que não impedia que se construissem famílias restritas consuante os interesses que estivessem em causa. A família está no fundamento da sociedade em STP, não pelos laços de parentesco, mas por relações de interesse e  económicas.
Sendo o MECF,  um dos ditos independentes do XIV governo constitucional, poder-se-ia levantar a hipótese,   da sua necessidade de afirmação face ao PM, promovendo o “linchamento simbólico” da  “Prima DG”.
Parafrazeando, ainda, o jornalista do Téla-non quando escreve “...escorregou no tapete da mudança e caiu”,  poder-se-ia levantar, ainda, uma segunda hipótese, a saber, o  afastamento da DG teria servido,  para desviar a atenção da família político-partidária do PM do seu  tropeço no ” tapete da mudança”, ao pretender candidatar-se a Presidente da Républica. 
Talvez por tudo isto o apelido da DG, - Trovoada – foi eliminado do seu nome completo, no documento oficial - despacho conjunto, assinado pelo PM e MECF, pondo fim à sua comissão de serviço.

continua...